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Os mais adultos dizem que os Congolenses não é mais o mesmo. Segundo o que contam, há não muito tempo as quitandeiras faziam a sua candonga dentro do mercado e mesmo um pouco apertadas vendiam a sombra e em bancadas de alvenaria e outras de madeira.

Dentro desse recinto os espaços estavam organizadamente separados. Quem adentrasse pelo portão principal deparava-se primeiro com a zona reservada a roupas, sapatos. As roupas eram expostas do alto para baixo e ocupavam os corredores como cortinas improvisadas num colorido sem igual. A esses produtos se misturavam aparelhagens de som, muitos deles funcionavam a pilha, que em alto volume tocavam musicas diferentes na tentativa de mostrar a potencia particular aos clientes interessados. Os corredores do mercado eram pequenos e com freqüência quem passasse por ali acabava por esbarrar nas outras pessoas e nos produtos expostos.

Por ali estava, também, o espaço reservado as bebidas, na sua maioria mercas importadas. As grades de gasosa e cerveja eram empilhadas de uma forma que lembravam os cartões postais das grandes cidades do ocidente.

Um pouco mais adiante o visitante deparava-se com um ambiente que oferecia de tudo um pouco. Virando-se a direita estavam as mamas que vendiam o peixe e a carne fresquinha, num talho improvisado, mas que oferecia as mínimas condições de higiene.

O mercado possuía uma espécie de praça de alimentação, a rigor, não era bem uma praça, mas sem duvidas era o lugar mais quente dos Congolenses. O local era dominado por senhoras que transpiravam enquanto cozinhavam em panelas enormes, que sentadas no carvão em brasa deixavam escapar vapor que transportava o cheiro irresistível da muamba, calulu, o feijão de óleo de palma, e o funji de bombo que era a preferência da maioria dos clientes que para variar optavam também pelo mufete de peixe grusso e o meia mungua. Muitos freqüentadores eram chefes de família, mas abdicavam do almoço em casa na companhia da prole pelo ambiente sempre festivo do mercado dos Congolenses. Em casa não havia tanta fartura assim, os miúdos lá em casa e o pai deles na praça a comer e a beber.

Com o êxodo desenfreado para Luanda e o crescente desemprego, muitas pessoas foram forçadas a juntar-se as quintandeiras nos diversos mercados da Capital vendendo qualquer coisa para sustentar a família. Com isso o cenário dos Congolenses também mudou. Os limites oficiais do mercado não comportavam mais a multidão que ali acorriam, por isso o cenário se transformou completamente. Aos poucos todos os espaços próximos estávamos tomados por mercadorias estendidas no chão, produtos sujeitos a poeira um verdadeiro retrato do caos da nova Luanda. (Extrato do livro Cacimbados, de Kachipepe)

publicado por beco1001 às 15:15
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5 comentários:
excelente descrição do mercado, lembro-me perfeitamente do mercado dos congolense. Recordar é viver, parabens
marcocadi a 4 de Junho de 2010 às 20:55

muito bom, estamos a espera do livro, que acredito que vai estar repleto de descriçoes boa comu estas dos congos
simao diogo a 7 de Junho de 2010 às 18:17

Espero que voltem a actualizar o vosso blog... Mas já começo a pensar que desistiram mesmo...

Treza@blogs.ao a 23 de Julho de 2010 às 13:21

TEm coisas novas sim meu kamba. Voltaram a actualizar e está bwé fixe. Abraço
Massanga a 17 de Setembro de 2010 às 02:10

Texto riquissimo em detalhes e com otima coesão. Se uma "parte extraida" do livro é tão agradavel de ler e leva o leito a se interagir tanto quanto mais será a obra completa. Acredito que muitos que ainda lerão esse post também viajarão no tempo!! Sr. Kachipepe está a dar um contributo todo especial aqui nesse espaço. Obrigada por nos proporcionar isso.
Sinceramente.
Massanga a 17 de Setembro de 2010 às 02:07

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